sexta-feira, 12 de junho de 2009



“People's fantasies are what give them problems. If you didn't have fantasies you wouldn't have problems because you’d just take whatever was there. But then you wouldn't have romance, because romance is finding your fantasy in people who don't have it. A friend of mine always says, "Women love me for the man I'm not." – WARHOL, Andy.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

3

Natal de cinco anos atrás, atrás de uma árvore. De natal. Meu presente era um beijo guardado numa caixa vermelha que estava dentro de uma caixa maior, meio bege. O amigo não era oculto. Nossa brincadeira era outra.

A arvore de natal foi testemunha da entrega de presente mais emocionante que já fiz. Pelo menos tentei fazer. Nunca havia entregado um beijo como presente a ninguém nos meus poucos anos de vida. Casa dos meus avós. Digo casa da minha avó. Meu avô morreu. Há três anos. Infarto. Meu Deus. Gritou minha avó. Não pelo meu avô. O grito foi pela tigela nova que mamãe comprou que caiu no chão.

Voltando a árvore. Leonardo. Pedro. Miguel. Felipe. Aquela arvore testemunhou a entrega de beijos de meus primos. E eu também. Todo natal um deles entregava beijo a alguém. E eu espiava por de trás da árvore. Agora era a minha vez.

Cheguei tímido. Caixinha vermelha nas mãos. Ora parecia que estava com ela na boca. A caixa bege tremia. A vermelhinha também. A tampa se abriu e o beijo escorreu. Caiu de leve nas bochechas do tapete. Entrega mal sucedida. E para minha vergonha, Leonardo, Pedro, Miguel, Felipe estavam atrás da arvore me espiando. E riam. Eu chorei. Perdi meu primeiro beijo.

Cresci revoltado odiando natal. Até que um dia conheci Olga que de tanta bijuteria, parecia com a tal arvore. E é atrás dela que corro até hoje pra dar um beijo, não o primeiro. Mas um dos vários que ainda me restavam naquela caixinha.

2

Hoje almocei almôndegas. Odeio almôndegas. Embora a moça que as cozinhe aqui em casa as chame de pelotas, o que me faz ter mais ódio ainda delas. Não sei o que acontece que não digiro muito bem carnes em geral. Principalmente almôndegas.

Tenho um passado negro com almôndegas. Fazem-me lembrar da vez que meu pai cuspiu uma amídala, quase uma mini-almôndega. Inflamação. Eca. Cuspiu todinha sem cirurgia.

Nunca vou me esquecer daquele dia traumatizante. Um horror. Papai chegou tossindo, reclamando de dor de garganta. Tossiu uma. Duas. Três vezes. Puff. Voou. Trezentos e sessenta graus. Um verdadeiro duplo twist carpado. Caiu no carpete, rolou até onde o carpete encontra o rodapé, e lá ficou.

Enquanto acudíamos papai, coitado, Matilda, a siamesa que morreu de toxoplasmose anos depois, brincava com a amídala de papai. Eca. Saí daí Matilda, gata demônia! Dizia eu em febre do momento. Catamos a amídala e jogamos fora, claro em condições higiênicas o suficiente para ser separada em um lixão. Ou reciclagem. Enfim.

No outro dia, que maravilha. Almôndegas no almoço. Minuto de silêncio. Por um momento pensamos em comer Matilda no almoço. Não seria nenhum problema levando em consideração o tanto de carne de gato que clandestinamente comemos pelos churrasquinhos da vida.

Não comemos Matilda. Mas ela morreu. Toxoplasmose. Anos mais tardem. Meu pai bem. Após uma semana de antibiótico. Firme e forte.

1

Acordei às 07h15min, ninguém em casa tinha levando ainda. Fui ver se meus pais ainda estavam dormindo. Estavam. Minha mãe, como imaginei, não teve uma noite muito boa após a notícia da minha avó. Meu pai, não tinha levantado ainda. Estranho. O frio me fez ter a impressão de que algo tinha parado. Pouco movimento na rua. Assim como nas calçadas. Fiz o café da manhã e me arrumei para a aula. Ao sair minha mãe estava dormindo ainda. Meu pai tinha começado a ler o jornal na sala. Fechei a porta.

Nada de mais, hoje eu estava meio desligado. Sorri pouco, a não ser para a caixa da padaria. Ela estava de mau humor, e eu sempre sorrio para quem está de mau humor. Gosto de sorrir para quem está de cara feia. A não ser quando estou com dor de cabeça Não sorrio para mudar o dia da pessoa, ou algo do tipo. Sorrio por implicância mesmo.

Voltei para casa. Levei minha mãe para a rodoviária. Era 11h30min. Preocupada com a sua avó. Eu também. Alguma notícia nova. Nenhuma. Estado grave? Derrame. O segundo, certo? Sim. Que dia volta? Não sei, cancelei minhas aulas por duas semanas. Tchau. Tchau, dou notícias. Um abraço. Cuida do seu pai.

Dirigi sem rumo por um tempo até chegar em casa. Tinha aulas a tarde. Sorte que as tinha. Aulas me colocam no eixo de concentração. Não fujo delas, mesmo quando tenho mil coisas para pensar sobre minha outdoor life.

Acabaram as aulas. Casa. Banho. Comida. Internet. Textos. Internet. Comida. Louças sujas. Quatro vasilhas. Poucos talheres. Dois pratos. Eram dois ou três? Não importa. Internet. Divagações. Esclarecimentos. Novas dúvidas. Algumas certezas mais. Sono. Dentes. Listerine. Internet. Tchau. Sono. Cama.

Dormi. Profundamente. Sonhei. Acordei no meio da noite. Dormi. Despertador. Acordei às 07h15min, meu pai não tinha levando ainda...