sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

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Uma máquina de cola quente talvez pudesse resolver essas querelas que me atormentam. Te colaria numa cadeira e faria coisas não ortodoxas com você. Te contaria toda a minha vida, atuando, fazendo drama, adaptando, incluindo você me cada parágrafo. Colando você à ela, minha vida. Falaria do meu mundo, do meu submundo e de como você é importante nisso, nesse meio termo, nesse entremundos. Escuta! Ainda estou falando.

Cola quente não parece suficiente então. Quero uma fita adesiva bem poderosa, para colar seus lábios. Assim você só escuta, todas as minhas desventuras, aventuras, loucuras e outras coisas aumentadas por mim com o intuito de atormentar você. Me ouve. Não me olha nos olhos. Só me veja atuando, passando para lá e para cá na frente da sua cadeira. Entendeu? Vou falar mais alto. Entendeu agora?

Não se faça de vítima. Vítima sou eu. Continuo meu ato, matando o meu eu em cada cena nova. E você assustado não crê. Crê na loucura que eu faço. Mas não crê em mim. É tudo verdade, não tá vendo? Você me deixa louco, nunca prendi ninguém assim. Não me atormente. É a minha natureza, não sou humano. Sou a personificação de tudo o que você queria. E agora que não quer mais, vai me ouvir.

Gritar como? Está atado esqueceu? Grito sufocado não surte efeito. Calma, mais um minuto e te libero. Sai correndo. Escuta mais um pouco, esqueci daquela outra parte que te atormenta. Vai ouvir quando eu quiser e calado. Outro dia. Tá livre. Vai embora. Feche as cortinas quando sair.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

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Era tudo pose. O cabelo dramaticamente organizado em camadas que balançavam ao vento. A bolsa, réplica de marca famosa, carregava um telefone celular pré-pago, batom, lixa de unha e uns cacarequinhos bobos que de nada serviam além de dar volume ao couro - de seringueira - marrom.

O ônibus sacolejava e em igual sacolejo estavam sincronizados os cabelos e os badulaques dentro da bolsa. Não era necessário olhar raio-X para saber o que carregava a bolsa muito menos para saber o que estava dentro da cabeçazinha que sustentava as madeixas loiro-envelope. Desceu do ônibus e num salto cuja sustentação humana seria impossível em condições normais e, atravessou, fora da faixa, a avenida tão comprida quanto uma belém-brasília da vida.

Do nada veio uma van-kombi-perua e atingiu os saltos, os cabelos e a bolsa; saltos e bolsa foram atirados ao longe e os cabelos caíam lentamente e balançados por um zéfiro. Em menos de vinte e oito segundos uma multidão estava ao redor da cena do acidente.

A moça levantou, disse estar tudo bem, conferiu as unhas exageradamente polidas e vermelhas, retocou o batom e terminou de atravessar a avenida. Nada sofreu de grave além de um corte superficial na testa perfeitamente curável com band-aid e mercúrio cromo. Era tudo pose.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

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Paz confortavelmente entra pelos meus ouvidos olhos pés mãos me conforta massageando tudo aquilo  doía lá dentro de mim  não era tranqüilo  não era bom. Paz invade constantemente meu ser e vai tomando meus pés da onde eles deveriam estar presos ou andando. Paz me desconforta me incomoda me irrita me tolhe me mata me escalpela me desorienta me deixa ... em paz.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

32


Após quase um ano de namoro e quatro meses morando juntos, finalmente o pedido foi feito.  Na sala do nosso apartamento, que fazíamos questão de deixá-la sem móveis; apenas um aparador de vidro cuja única e exclusiva função era guardar as chaves do carro. Saí do banho e fui surpreendido por um abraço tão forte que se não fosse a força adquirida em anos de exercícios físicos teria explodido minhas costelas, abraço tão forte que me tirou o ar. E nem era preciso me abraçar forte pra me tirar o ar, sua singela fala ou singelo gesto, qualquer um que fosse, era forte e me deixava no mesmo patamar de alguém com um sério enfisema pulmonar.

Esbarrei a mão no aparador e o mesmo tombou, jogando as chaves no chão e se despedaçando em milhares de pedaços nos tacos de madeira. Ainda abraçados e ainda "enfisêmico", vi tudo aquilo em câmera lenta; cada pedaço sendo jogado longe, cada pedacinho sumindo na claridade que o sol das cinco fazia no chão da sala. Mas não nos preocupamos. O pedido se despedaçava no meu ouvido da mesma forma e na mesma frequência em que o vidro do aparador se espalhava no chão.

Sua cabeça estava colada a minha, sua voz entrava de maneira lenta e fracionada enquanto eu observava o mais ínfimo pedaço de vidro escapulindo e quicando pra fora da janela do apartamento. Com sua cabeça  colada a minha, fiquei com medo de pensar qualquer coisa que estragasse o momento e então imaginei  a minúscula lasca de vidro caindo no topo do sorvete do menino que passava sete andares abaixo e após engoli-la foi levado às pressas para o pronto socorro. Uma vez que sobreviveu a terrível sensação de comer vidro foi levado para casa e como recompensa por ter sido um bom garoto no hospital, ganhou outro sorvete. Foi o que pensei para ficar calado por um tempo.

No momento o corpo ficou desconexo com os sentidos mentais, era mesmo o pedido que eu queria ouvir desde quando passamos a morar juntos, e finalmente foi feito. Ao me soltar, descolei lentamente do seu corpo e percebi que havia molhado toda a camisa azul clara que eu havia passado na noite anterior, para uma reunião especial. Pedido feito, pedido aceito. Casal feliz.

Na lista de presentes de casamento uma nota foi feita no verso  - não por mim - e se lia:

Por motivos de ataques histéricos, momentos de alegria exacerbada e com o intuito de evitar engasgamento de outrem, agradecemos se aparadores de vidro não forem dados como presentes.

 Atensiosamente, o casal.

Meus amigos ficaram preocupados e com receio de que violência doméstica pudesse ser algo praticado com frequência e entusiasmo pelo casal e, eu tenho sempre que imaginar coisas diferentes a todo momento que estamos de cabeça colada, senão além de destruidor de objetos ainda serei tachado de estar obcecado por meninos com sorvete. E só para constar, a sala continua vazia.